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Amor, essa variável difícil de modelar

Amor, essa variável difícil de modelar

22 de junho de 2026

Instantes Literários - Fevereiro 2026
Todos os meses, as famílias da Espaço Aberto recebem um Instante Literário: uma leitura cuidadosamente selecionada para inspirar reflexões sobre a infância, a educação e os desafios do cotidiano. Por meio de artigos, entrevistas, reportagens e outros textos, buscamos ampliar o diálogo entre escola e família, compartilhando ideias que enriquecem o olhar sobre o desenvolvimento das crianças.

O amor nunca coube em planilhas. Talvez porque ele recuse o conforto das relações lineares e prefira o território instável das coisas humanas, lugar onde a razão costuma tropeçar. Ainda assim, é curioso perceber como ele organiza nossas escolhas até mais do que qualquer indicador socioeconômico. Ele costuma interromper rotinas muito bem estabelecidas e deslocar prioridades.

A maior surpresa é que ele não exige grandes cenários para acontecer. Às vezes nasce em conversas que não prometiam nada. Duas pessoas, um café e algo que se encaixa. Uma frase jogada no ar abre espaço para outra, que abre espaço para outra e, quando percebemos, já existe uma espécie de pacto íntimo e provisório. Uma espécie de sensação de que o mundo ficou um pouco mais agradável do que antes.

Talvez a parte mais intrigante seja que o amor convive com inseguranças. Ninguém entra nele fluente. É um território desconhecido. Por mais que acumulemos experiência, o idioma emocional é cheio de ruídos. Há dias em que a dúvida fala mais alto e a gente quase desiste antes de tentar. E ainda assim tentamos, como quem insiste em aprender uma língua difícil porque sabe que o esforço pode valer a pena.

O amor também tem seu componente de desigualdade. Não falo de renda, assunto comum nesta coluna, mas de disponibilidade interna. Há quem chegue inteiro e há quem carregue cansaços antigos. Há quem esteja disposto a se abrir e quem ainda ache mais seguro manter camadas de proteção. A questão nunca é exigir simetria. É saber se existe equilíbrio possível, se ambos estão caminhando na mesma direção, ainda que em ritmos diferentes.

No fundo, o amor é uma aposta. Não uma irracional, mas uma informada pelas intuições. É a decisão de conceder ao outro um espaço dentro da nossa vida. E aceitar que isso envolve riscos, mas também pode envolver ganhos que nenhum modelo econômico de custo e benefício consegue dimensionar. Há um retorno específico na experiência de caminhar ao lado de pessoas que nos escutam e nos fazem sorrir.

Se existe uma lição que o amor entrega é que ninguém ama no tempo perfeito. Amamos no meio do cansaço, com tarefas na agenda, tentando conciliar ambição, fragilidade e desejo. Amamos mesmo quando não nos sentimos preparados. E talvez seja exatamente isso que o torna tão humano.

No fim, amar é admitir que a vida não se resume ao que conseguimos construir sozinhos. Há algo de infinito na simples presença de outras pessoas. Algo que escapa às nossas tentativas de organizar o caos, mas que, por alguns instantes, dá um sentido inesperado a tudo.

E talvez seja por isso que, mesmo depois de algumas quedas, seguimos insistindo. Porque, embora não caiba nas planilhas, o amor segue sendo uma das experiências mais sofisticadas que a vida pode nos oferecer.


MICHAEL FRANÇA

FOLHA DE SP 9-12-25

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