Muito se ouve sobre os contos que embalam a infância. Diante de lobos que devoram avós, madrastas perversas, pais que se perdem no sussurro das florestas e leões que choram a orfandade, o olhar apressado do adulto pode enxergar apenas a desgraça. Nos assusta ver tamanha fragilidade exposta a esses abismos, mas é preciso pausar e olhar de perto.
A literatura infantil não é um labirinto de assombros; é um mapa secreto para o coração.
Nas páginas de um livro, a infância encontra o berço de seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social, além de cultivar o gosto pela leitura. É ali também que a cultura dança no tempo, preservada de geração em geração pela palavra falada.
As crianças possuem o dom de enxergar o mundo por uma fresta de luz diferente da nossa: para elas, os nós mais complexos da vida desatam-se com a sabedoria da simplicidade.
Quando abrimos uma narrativa na Educação Infantil, nosso intuito não é semear o medo, mas tecer as asas que permitirão a esses pequenos indivíduos voar sobre tempestades.
O primeiro setênio prepara a criança para a vida; é o solo sagrado onde a existência se ensaia! Aos dois anos experimentam a sensorialidade, aos três, o heroísmo, aos quatro as parcerias, aos cinco a investigação do mundo onde vivem e aos seis a cidadania. Essas são as estações de uma jornada que iremos repetir, em espiral, por toda a nossa história e que não deveriam ser esquecidas.
Assim, quando o lobo mau surge na “floresta de papel”, ele não vem para ferir; vem como forma visível dos medos sem nome que habitam o silêncio do quarto: Meus pais vão sumir? Há algo sob a minha cama? O amor da minha mãe diminuirá quando o meu irmão chegar?
É nesse momento que a escola e a família se tornam santuários. Cabe a nós abraçar esse sentimento, acolhê-lo em um território de afeto e proteção. É nesse abraço que o medo perde a força e se transforma em fortaleza, autoestima e superação.
Depois de compreender o mistério que habita essas páginas, quem ousaria calar as vozes de nossas mães e avós? Quem, ao olhar para trás, não sente a alma transbordar em gratidão pelas histórias que nos tornaram humanos?
Coordenação Pedagógica
Lila e Marcella

